por Carlos Ney – Texto publicado na edição 03 do jornal O CARAPEBA em 01 de outubro de 2010
Diferentemente do que se percebia em eleições passadas, a escolha dos deputados estaduais e federais assume, em Araruama, uma importância maior que a de governador. E embora o fato possa ter mais de uma explicação, eu fico com a que me parece mais óbvia: é a primeira chance que tem o nosso eleitor de avaliar o governo André Mônica.
Durante os oito anos de seus dois mandatos, o ex-prefeito Chiquinho da Educação fez o que quis em termos de administração e de política. Apesar de ter sido eleito, em seu primeiro mandato, com o apoio de Paulo Melo e André Mônica, Chiquinho jamais fatiou seu poder, dando-se ao luxo de, literalmente, fechar as portas da cidade ao casal Garotinho. E pelo que se ouvia na época, Araruama foi impedida de progredir, por conta dessa intransigência política. Na reta final de governo, Chiquinho – que não tinha herdeiro a quem entregar sua coroa – declarou apoio ao então candidato Sergio Cabral (dizia-se na época que receberia uma secretaria no Estado) e, por conseguinte, tornou-se (mais uma vez) aliado de Paulo Melo e André Mônica, vindo ajudar este último a se eleger prefeito. Mas, como Chiquinho é Chiquinho, não desmontou do jegue do oportunismo e, logo nos primeiros meses do novo governo, passou a usar o microfone como atiradeira e os aloprados (o termo é dele) como alvos. E enquanto a Casa Azul apenas assistia, o radialista Chiquinho ia fazendo a sua micareta eleitoral (campanha fora de época), garantindo para si o status do primeiro político araruamense com possibilidade de eleger-se prefeito em mais de um município. Lançando-se candidato, Chiquinho caminhava para se tornar deputado federal. Mas, numa decisão surpreendente, desistiu da candidatura (diferentemente do que explicou, fala-se que seria a certeza de que seria brecado pela “ficha suja”, ou até num acordo fechado com o governador Sergio Cabral). E fez mais ainda: anunciou que apoiaria um dos homens mais comprometidos com o governo municipal, Xico Pintado, ex-secretário de Obras e amigo do prefeito, não coincidentemente um dos secretários que Chiquinho mais criticou, e que, maldosamente, apelidou de Xico Dálmata (o cachorro que tem pintas).
Tudo explicado, vamos ao quadro eleitoral que ora se apresenta. Para deputado estadual, o mais cotado para vencer aqui o saquaremense Paulo Melo (PMDB), homem forte dos governos de Araruama e Saquarema, é o Miguel Jeovani (PR). Claro que essa derrota em nossa terra não impedirá a vitória do eterno deputado, que tem sólidas bases em outros municípios fluminenses; mas, vai pegar mal. Paulo Melo não costuma aceitar bem as derrotas, e alguém vai ter que pagar essa conta.
Para deputado federal, o vereador de oposição, Saulo Peres (PCdoB) tem uma parada que, teoricamente, é duríssima: vencer bem, aqui em Araruama, o candidato do governo municipal, Xico Pintado, já que uma excelente votação aqui é fundamental para suas pretensões (conquistar a cadeira de deputado federal e afirmar-se como nova liderança política em Araruama). Mas, o que torna estes dois enfrentamentos ainda mais significativos, é que ocorrerão no momento em que o governador Sergio Cabral (que tem o bafo do Gabeira na nuca), conta como certo repetir, aqui em Araruama, a consagradora votação que lhe deu a união de Paulo Melo, André Mônica e Chiquinho da Educação. Só que esta eleição tem um complicador que, em minha avaliação, definirá os seus números: o voto útil. Muito mais do que votar a favor de um candidato, pelas virtudes que ele tenha, o eleitor deverá avaliar o governo André Mônica, e dessa forma poderá votar contra. Porque, por mais antenado que esteja quanto ao que acontece na capital, o cidadão é obrigado a conviver com uma realidade de pagar impostos demais e ter benefícios de menos. E se comparar este governo com o anterior, poderá achar que comprou gato por lebre, preferindo apostar no novo.
Agora, embora estejam lutando em trincheiras diferentes, Saulo Peres e Miguel Jeovani sabem que combatem o mesmo combate. Precisam ser identificados pelo eleitor, como oposição, capitalizando como votos em seu favor, a rejeição que o governo municipal vem conseguindo junto ao eleitorado de todas as classes sociais, em quase dois anos de governo. Porque será este o voto que irá garantir sua eleição.
