Texto publicado na edição 04 do jornal O CARAPEBA em 01 de novembro de 2010
ATENÇÃO: Matéria ficcional de conteúdo mentiroso e irreal, baseada em fatos quase verídicos
Histórias de sucesso que se cruzam
Na década de 1960, o então retirante Seu Hélio chega a Araruama e inicia o seu primeiro empreendimento na região, mais precisamente no bairro de Boa Vista: o mercado Só Tudo, imaginando se aproveitar da distância do local para vender seus produtos por preços exorbitantes. Para não pagar o salário justo aos seus funcionários, ele passou a recrutar crianças de dez anos de idade, em média, para realizar o trabalho pesado, as quais ele chamava de “meus barrigudinho”. Em uma época em que o trabalho infantil não era criminalizado, o mercadinho gerava o primeiro emprego para muitos pequenos araruamenses, e de quebra reduzia as suas infâncias.
Aos mini-funcionários, um dia se juntou Miguelzinho, menino inteligente que logo se destacou pela capacidade de trabalho, observação e por saber a tabuada como ninguém. Tornou-se um crítico do sistema perverso que predominava no mercado, o que acabou chamando a atenção de seu patrão. Seu Hélio, como homem visionário e explorador que é (eu digo porque ele é meu chefe! E digo mais ainda porque como ele não sabe ler, isso aqui vai passar batido), percebeu que estava diante de um talento bruto e de um bruto problema. E assim como um guerreiro Jedi, chamou-o para o Lado Negro da Força, ordenando que ele lavasse com detergente uma peça de apresuntado impregnada de mofo e depois botasse na prateleira para vender.
O “pequeno notável” Miguelzinho não se intimidou. Para não cometer o ato criminoso e de extrema nojeira, disse não ao patrão e pediu demissão para iniciar a sua própria história empresarial, contrariando tudo o que lhe foi dado de exemplo por seu ex-chefe. Após receber apenas uma maçã como indenização trabalhista, ao invés de comê-la, foi para a feira livre oferecer a fruta. Com o dinheiro da venda, comprou mais duas, vendendo-as para comprar mais quatro, e assim por diante muitas e muitas vezes. Em poucos anos, o jovem formava o seu próprio império comercial e sua rede de supermercados.

com seus funcionários Alfafa, Miguelzinho (ao centro) e Maísa.
A derrota e arrependimento de Seu Hélio
Após Miguelzinho, o barrigudinho-modelo de seu mercado, pedir demissão, Seu Hélio não percebia ainda o que estava fazendo com sua vida. Continuou tocando seu negócio de qualquer maneira, visando o lucro fácil, explorando seus funcionários e clientes e imprimindo o seu mau (péssimo, horrível…) caráter ao negócio, apoiado pelos bajuladores de plantão (olha eles aí), que o convenceram a entrar para a política e saciar ainda mais sua sede pelo poder. O empresário candidatou-se a prefeito e foi derrotado vergonhosamente nos anos 80. Gastou todo o seu dinheiro comprando votos no atacado e varejo, torrou seus bens na campanha e ficou na miséria, enquanto assistia ao seu ex-discípulo abrir suas primeiras lojas e prosperar na cidade. Depois daquele momento, tudo o que Seu Hélio podia enxergar eram os tijolos do fundo do poço onde se encontrava.
A volta por cima
Em meio ao arrependimento encontrado pela derrota, Seu Hélio procurou o seu ex-barrigudinho, que apesar de tudo teve a hombridade de lhe dar uma segunda oportunidade na vida. Depois de pedir perdão a ele, Seu Hélio recebeu de Miguelzinho como resposta carinhosa um linda maçã, para que ele pudesse recomeçar sua história. Apesar da tentação provocada pela fome, ao invés de comê-la, Seu Hélio humildemente foi para a feira livre oferecer a fruta. Com o dinheiro da venda, comprou mais duas, vendendo-as para comprar mais quatro, depois mais oito… e aí ele cansou disso. Pegou o dinheiro e jogou tudo no bicho. Ganhou na cabeça e se tornou novamente um megaempresário, hoje disputando o posto de maior empreendedor em Araruama com o seu ex-pupilo Miguelzinho, que além de tudo se tornou o político eleito recentemente com mais votos em Araruama.
Conseguimos fazer duas perguntas para Seu Hélio, que apesar de ter uma agenda mais cheia do que a do prefeito, nos deu cinco minutos de sua atenção:
Seu Hélio, hoje o senhor reconhecidamente é um homem mais sábio do que antes, depois de tanto tomar na cabeça. Qual o conselho que o senhor daria aos políticos locais, já que o senhor não voltou a se envolver com a política depois de perder a eleição, há mais de 20 anos?
Primerio qui eu num daria, eu vindia. Sigundo, si eu fossi vendê, é u siguinte: cuidadu cum us puxassaco. Ô rassa da mulesta os tal di puxassaco. Povu discompetente qui só tá pertu pus causa da xance di ficá pertu do pudê. Todu mundo qué u pudê. I us bobo axa qui todu mundu é amigo. Além di tudo inda fica ti dizeno qui ta tudu baum, ta tudu bem, i nóis fica tudo filiz axano qui ta tudo bem mermo e u circu pegano fogo. Quandu u filme quema, já era. Podi sê veriadô, prefeitu, deputado, candidatu a candidatu, mas sempri tem us babaovo prá atrapaiá.
Quer dizer então que o senhor não volta pra política?
Qui nada! Na prócima eleissão eu sô candidato a prefeitu! Mais agora eu to fazeno tudu certinhu. Primero, eu tô inalgurano minha pópria rede de supemercadu, é u primero passu pra sê um bão pulítico. Purque o povo recrama do prefeitu? Purque nem mercadu eli teim. Intão, istou lançano o Carapeba Supermercados esse meis, i nu veraum vo fazê a festa di 1 ano dele, com déizi mêsi di antecedenssa. Mim aguarde.
