Em Araruama, nada nos aborrece

por Carlos Ney – Texto publicado na edição 08 do jornal O CARAPEBA em 03 de fevereiro de 2011

O sol, através do rombo na telha, explode em meus olhos sonolentos, obrigando-me a sair da cama. Com um sorriso resignado, torno a me prometer que vou consertar aquele telhado. À procura dos chinelos que parecem passear pela casa toda, meus pés esbarram no Ugo – o cachorrão que um dia apareceu por aqui e ficou. Abro a janela e deixo os olhos percorrerem cada palmo de terra batida que me separa da lagoa de Araruama, agora um imenso espelho onde o sol se esparrama. Meu peito se enche de orgulho pela minha cidade. Caminho para o banheiro, desviando das tralhas que aguardam o momento certo para serem dispostas nos lugares devidos. Outra coisa para não me esquecer de fazer. Agora não, é claro, que o dia promete ser muito quente. Pego uma caixa de leite na geladeira e coloco a chaleira com 2 dedos de água para ferver. Isso é importante. Nem mais, nem menos, a é para não sobrar e nem faltar. Ouvindo o barulho das panelas, Ugo desperta. O último pão francês, emborrachado após dormir tantos dias, mergulha resignado no Nescafé com leite. Que delícia! Com Ugo aos meus pés, sentado na cadeira de balanço que herdei de meu pai, que herdou de meu avô, eu me dedico ao ócio absoluto, assim como eles antes de mim fizeram. Sou muito apegado às tradições de família, e não abro mão dos velhos hábitos. Vai começar o programa da prefeitura. Só isso para me fazer levantar. Durante duas horas, eu e Ugo somos informados das grandes mudanças que estão acontecendo na cidade. Parece que já tem até fila de turistas na nossa porta. Claro que, daqui de onde estamos não é possível enxergar tanta modernidade. Mas, se deu no rádio, é porque é verdade segura. E o que não foi feito agora, irá ser feito outro dia. Pra que a pressa? As pessoas têm que entender que antes de casar com a mulher amada, o homem tem que casar com os defeitos dela. Se por aqui tem mais buraco do que rua? Tem! Se no calor é uma poeirada insuportável, e quando chove é lama para atolar elefante? É! Mas, isso aqui é a nossa Araruama, inteiramente abraçada pela lagoa que lhe empresta o nome, e que é uma das mais deslumbrantes telas pintadas pela Mãe Natureza. Eu e Ugo sabemos que fomos escolhidos a dedo para morar neste paraíso. Por isso, meus irmãos, tudo nos encanta e nada nos aborrece.

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