Deus e o Diabo na Costa do Sol

por Carlos Ney Texto publicado na edição 03 do jornal O CARAPEBA em 01 de outubro de 2010

Por obra e graça de uma religião que nos veio junto com o leite materno, descobrimos que o mundo vive uma eterna luta entre a luz e a treva, representadas cada uma delas por entidades distintas. De um lado, com suas asinhas imaculadamente alvas, os anjinhos gorduchos com seus cachinhos dourados e o olhar sempre atento. Do outro, com o couro vermelho como brasa, os infernais capetinhas, com chifrinhos, rabinho de seta e cheios de más intenções. No meio, com cara de quem veio para uma festa sem ter sido convidado, eu ou você. No correr dos dias entre o nascimento e a morte, caminhamos bêbados por uma linha de arame, esperando pelo momento em que o diabo nos empurre e torcendo para que o anjo nos ampare.
Durante os oito anos de governo de Chiquinho, era voz corrente nos redutos oposicionistas que o prefeito era o diabo em forma de gente. Encheu a prefeitura de amigos, perseguiu quem não o bajulou, aplicou erradamente os recursos públicos construindo monumentos faraônicos, fechou as portas da cidade à generosidade desinteressada do casal Garotinho, e se viu obrigado a conviver com o fantasma do impeachment. Mas, como a política é mais cena do que enredo, antes que as luzes do mandato se apagassem, o M.C. Chiquinho reuniu no mesmo palco, ambas as trupes, para garantir a eleição de Sergio Cabral (que tinha o bafo de Gabeira na nuca). Sob aplausos do povo, os velhos adversários – Paulo Melo, André Mônica e Chiquinho, abraçavam-se ali. Pelo bem de Araruama, do Rio de Janeiro e do Brasil, é bom que se diga, já que somente o interesse público é que lhes guia os passos.
Depois veio a eleição para prefeito. Sem ter tido competência política para fazer seu sucessor, mas querendo permanecer no jogo, Chiquinho teve de apoiar André que, por seu lado, não tinha autonomia política para dizer não. Fosse Miguel Jeovani mais experiente, teria se aproveitado daquele momento único, e se afirmado ali como única liderança política da cidade, vencendo a sua eleição mais ganha. Mas, com as sobras de guerras passadas que lhe foram vendidas, ficou num melancólico quase.
Eleito André, e sem a secretaria no governo Cabral, Chiquinho reinventou o rádio, numa campanha que encheria de orgulho os velhos Leonel e Lacerda, que usavam o microfone como canhão. Dia após dia, deixou a Educação de lado e voltou a ser Atacadão, desferindo golpes abaixo da linha da cintura, contra um adversário que jamais reagia: o prefeito.
Sozinho, já que Miguel, abatido pela derrota, recolheu-se ao anonimato de antes, Chiquinho expunha o despreparo do novo prefeito, e de cada um dos aloprados (a expressão é dele) que ocupavam suas secretarias, culpando-os pelas mazelas de décadas da inoperância administrativa que acampou na cidade. Através do rádio, o povo foi convencido que Chiquinho era o anjo salvador, e a nova prefeitura, num azul fora de hora, a sucursal do inferno. De ponta a ponta, Araruama protestava através do Canal Aberto. E quanto mais se batia em André, mais Chiquinho crescia. Para não perder o bonde do poder, Chiquinho convenceu o PTB a lançá-lo como candidato a deputado federal (por medo ou cautela, esquivou-se de bater-se num confronto direto com Paulo Melo, líder do governador na ALERJ). Como o candidato do governo, nessa disputa, seria o secretário Xico Pintado (que ele chamava de Xico Dálmata, por conta das “pintas” que são características dessa raça canina), ele não o poupou das críticas de alto e baixo nível. E assim a coisa ia, com todo mundo já aceitando sua eleição (ele é o mais regional dentre os araruamenses em disputa), até que, num pronunciamento bombástico, Chiquinho retirou sua candidatura e, desmentindo-se da forma mais categórica, declarou em alto e bom som que votaria no “melhor” candidato: Xico Pintado! E mesmo sem explicar em quais critérios se baseou, disse que o atual vereador Saulo Peres, da bancada oposicionista, também candidato (e que recentemente votou pela rejeição das contas do ex-prefeito Chiquinho), estaria menos preparado que o ex-vereador e ex-secretário de Obras, Xico Pintado. Daí para cá, os correligionários de Chiquinho passaram a ser vistos passeando com desenvoltura pelos corredores governistas, que até pouco tempo lhes eram proibidos.
Se você, caro leitor, espera que eu feche este artigo dizendo quem é o santo e quem é o capeta, lamento decepcioná-lo. Caberá a você, e somente a você, no momento em que depositar seu voto na urna, escrever o final dessa história.

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