Texto publicado originalmente na edição 16 do jornal O CARAPEBA em 22 de maio de 2012

… perguntaria isso com certeza o Galvão Bueno, se aqui estivesse. Tecnicamente, não sei se isso é campanha política extemporânea. Mas se o que a gente assistiu durante todo o dia 17 de maio em Araruama não for, eu desisto de entender as regras. Não eram eventos restritos, e sim, apelativos à participação da população. De um lado, no restaurante Bella Bel, o evento “Volta,Chiquinho”, estrelando, o próprio – Chiquinho da Educação. Na verdade, ele não pode se candidatar a nada por aqui, pois seu domicílio eleitoral é em Búzios, e o seu retorno tem como objetivo apoiar a pré-candidatura a prefeito de seu irmão, o empresário João Ribeiro. Alguns metros à frente, no diretório do PR local, em cuja fachada fica evidente que o presidente se chama Miguel Alves Jeovani, graças a um letreiro gigantesco que propagandeia o nome do deputado-possível-pré-candidato-a-prefeito, outro grupo aguardava a chegada do ex-governador Garotinho e o presidente local para um autodenominado “Grande Encontro Político”. Não é coincidência a marcação de dois eventos simultaneamente. Foi uma queda-de-braço política, na qual todos os envolvidos se empolgam, mas ninguém ganha nada com isso e alguns ainda se “queimam”, assim como os fogos de artifício que estouraram durante todo o dia e noite, fazendo barulho, chamando a atenção por um instante, e depois, sumindo. No único placar que pudemos contabilizar, Chiquinho ganhou fácil: um número bem maior de pessoas em sua reunião, incluindo aí gente do povo mesmo, encheu o restaurante e o entorno. Na sede (não “sêde”) do PR, encontrava-se o “grupo” e pouquíssimos populares. A fórmula do Chiquinho realmente é bem melhor: comes e bebes no começo, seguido pela apresentação do showman da política, no qual o personagem ora é da Educação, ora se transforma no Atacadão, arrancando risos e lágrimas de seus fãs e surpreendendo muitos que não conhecem o roteiro do espetáculo. E a receita “ex-governador Garotinho + cachorro quente no final” já não faz o sucesso de outrora.
A volta de quem não foi
Não foi dessa vez que o plano de ser prefeito de Búzios funcionou. Mas para ele, não existe esse negócio de “não deu certo”, no máximo aconteceu uma rápida mudança de planos. Em se tratando de Chiquinho da Educação, nada costuma seguir a lógica ou ser previsível. Amando ou detestando o “cara”, temos que reconhecer: parece que ele nasceu para estar em evidência. Ex-prefeito de Araruama por dois mandatos, ele revolucionou a cidade em sua primeira administração, após recebê-la aos pedaços das mãos do seu antecessor, o “cômico se não fosse trágico” Meira. Ainda assim, foi reeleito por muito pouco depois de um quase empate técnico, em 2004. Se por um lado ele elevou a autoestima da cidade por meio de uma política voltada ao marketing, por outro, criou uma atmosfera de resistência por parte de pessoas de diversas correntes ideológicas, graças ao seu jeito pouco educado de ser. “Se eu não fosse tão escroto, poderia chegar a Presidente da República”, refletiu ele em uma ocasião, durante entrevista. Paradoxalmente, mudou seu nome para Chiquinho da Educação após a reeleição. Nos últimos quatro anos, fez um governo considerado “meia-boca” por muitos, no qual o marketing criado por ele dava sinais claros de desgaste, o que lhe rendeu uma grande rejeição ao final do seu governo, no qual as dívidas chegaram ao descontrole total. A crise era tanta que gerou uma briga à parte na última eleição majoritária: os então candidatos André Mônica, posteriormente eleito, e o derrotado Miguel Jeovani acusavam um ao outro de serem apoiados por Chiquinho. Finalmente, ele resolveu disputar a eleição em Búzios, a cidade que ele já pretendia residir ao término do seu mandato, inclusive sendo acusado de construir sua mansão utilizando operários da prefeitura de Araruama durante o expediente, o que lhe rendeu um processo no qual ele alega inocência.
Em 2012, após chegar lá do nada e fazer tanto barulho a ponto de ser cotado como um dos prefeitáveis na terra que Brigitte Bardot ecoou pelo mundo, foi crescendo a possibilidade da inelegibilidade para o cargo pretendido, graças a esse e outros vários processos jurídicos. Em maio, Chiquinho anuncia sua desistência à prefeitura de Búzios e volta para Araruama para ajudar na pré-campanha a prefeito de seu irmão, o empresário João Ribeiro, que resolveu se lançar na política. Como fator decisivo para tal mudança de direção, ele anuncia que tem um câncer na garganta, igual ao do ex-presidente Lula. Em tom misericordioso, Chiquinho pede orações a todos, amigos e inimigos. Segundos depois, quase sem perceber, muda de postura e não poupa ninguém de seus já conhecidos ataques verbais e chamamento para a briga (física, inclusive).
Os muitos amigos e inimigos que colecionou durante essa saga (e são muitos, de ambos os lados), não têm dúvidas apenas de uma coisa: é difícil segurar esse cara. Então, mais adequado do que a campanha “Força, Chiquinho!”, que menospreza a sua conhecida disposição para o embate, seria lançarmos a campanha “Some enquanto é tempo, tumor!”.

A chegada de quem ainda não veio
Em 2010, muitos de nós participamos de uma campanha daquelas para se vestir a camisa com vontade. Um espécie de “Marcha do Orgulho Araruamense”. Cinquenta anos sem um deputado araruamense nos deixaram ansiosos por demais. E emplacou. Hoje, quase um ano e meio depois de iniciado, e o placar do mandato tão aguardado pelo povo de Araruama do deputado “da terra” Miguel Jeovani ainda está no zero. Seja por falta de competência ou habilidade da equipe que o cerca, ou o reflexo de uma tentativa de entrar no chamado “mundo político” de qualquer jeito, muitos ex-eleitores de Miguel se desiludiram com os resultados práticos de sua atividade parlamentar. A função principal no exercício do cargo de deputado estadual é a de legislar, propor, emendar, alterar e revogar leis estaduais, além de fiscalizar as contas do governo estadual, criar Comissões Parlamentares de Inquérito e outras atribuições referentes ao cargo. Para fazer essas “coisas chatas” e ainda assim aparecer, o camarada tem que ser bom mesmo. Senão fica assim, como diriam os adolescentes, “avulso”, passa despercebido. O que o povo gosta mesmo é de ação, o que teoricamente não combinaria muito com o mandato de deputado. Mas na prática, a coisa é diferente. Acostumados com as propaladas obras “trazidas” há anos pelo nosso deputado “emprestado” Paulo Melo, nós, araruamenses, esperávamos pelo menos o triplo vindo das mãos de um deputado “só nosso”. E nada! Nem um centésimo delas… Na verdade, não cremos que ele não queira buscá-las, afinal ele precisa no mínimo justificar os votos que recebeu. Mas está faltando alguma coisa. Pode ser o mesmo que falta ao atacante do time de futebol que não consegue balançar as redes: habilidade. Ou uma equipe que colabore, fazendo a bola chegar “redondinha” para ele apenas tocar para o gol.
No seu “Inacreditável Futebol Clube” particular, Miguel ainda deu várias “bolas fora”, até hoje não explicadas. Quando questionados, ele e sua assessoria demonstram a mais profunda indignação, mas não respondem. O único barulho que sua equipe faz é na hora de atacar o governo municipal. A coisa mais fácil de fazer no mundo, em qualquer lugar. “Se hay gobierno, soy contra”. É sempre assim, sendo bom ou ruim. Assim como sem resposta ficou a carta aberta publicada aqui na última edição (disponível ainda no site do O CARAPEBA). Não para nós, que a escrevemos, mas para quem votou no deputado e está com a pulga atrás da orelha, pensando: “Será que o Miguel está envolvido nisso tudo mesmo?”. Nem que seja um reconhecimento de erro, ou uma desculpa bem dada (ratificando: DESCULPA BEM DADA). Mais uma vez, não somos nós que queremos essas explicações. A gente aqui, infelizmente, já sabe a resposta.
Depois disso tudo, o partido cogita sua pré-candidatura a prefeito, abrindo mão do seu (nosso?) cargo de deputado para a sua suplente Verônica Costa, a “Mãe Loira do Funk”. Sendo assim, só resta nos conformarmos com o que fizemos antes e o que fizermos daqui para frente. Tomara que pelo menos ela faça um bom mandato, por mais improvável que isso seja.

