Texto publicado na edição 13 do jornal O CARAPEBA em 05 de julho de 2011
Relembre (ou conheça) a história de Rosenery Mello, a “Fogueteira do Maracanã”, que ficou famosa ao protagonizar um dos casos mais curiosos do futebol mundial, e depois optou por viver anonimamente em Araruama. Rosinha, como era conhecida aqui, faleceu no dia 4 de junho aos 45 anos.
Desde a nossa primeira edição, pensamos em criar um espaço no O CARAPEBA para divulgar histórias de moradores de Araruama que, fora de nossa cidade, alcançaram destaque por algum motivo, seja por algum talento específico ou por vivenciarem situações inusitadas.
Nessa série de matérias, uma das entrevistadas seria uma pessoa que viveu os seus chamados “15 minutos de fama” no ano de 1989, durante as eliminatórias para a Copa do Mundo de 1990. Relembremos o caso: O Brasil não fazia uma boa campanha e corria sério risco de não se classificar para o mundial de seleções, que iria acontecer na Itália. A partida contra o Chile, disputada em um Maracanã lotado, iria definir quem ficaria com a vaga.
O clima era tenso. Na metade do segundo tempo, o Brasil vencia por um a zero e o goleiro chileno Rojas se jogou ao chão sangrando, supostamente atingido por um foguete sinalizador lançado por alguém na arquibancada. O jogo foi encerrado aos 24 minutos da segunda etapa e o Brasil seria desclassificado.
A torcedora que teria lançado o foguete foi localizada: Rosenery Mello do Nascimento, que foi presa e sofreu toda sorte de acusações e investigações, teve sua vida e conduta especulada pela mídia, foi criticada pelo já então inoportuno Galvão Bueno em rede nacional, sendo quase que promovida a inimiga pública dos brasileiros, que a consideravam responsável pela possibilidade da seleção brasileira não disputar a Copa do Mundo.
Mas a verdade enfim apareceu: foi provado que ela, que realmente havia disparado o sinalizador, não teria cometido nenhuma tentativa de agressão. O projétil não continha pólvora e nem poderia causar ferimentos do tipo apresentado pelo goleiro. Rojas aproveitou que o objeto havia caído próximo a ele, como mostraram imagens de TV, e simulou que havia sido atingido, e com a ajuda de uma pequena lâmina escondida em sua luva, cortou o próprio supercílio para provocar o sangramento, causando uma confusão imediata e uma farsa que entrou para a história.
Depois de descoberta a armação chilena, o caso rendeu a eles quatro anos de afastamento dos eventos futebolísticos internacionais impedindo que a seleção do Chile disputasse não só a Copa do Mundo da Itália, em 1990, mas também as Eliminatórias da Copa de 1994, nos Estados Unidos.
Mesmo não sendo responsável pelo ferimento do goleiro, Rosinery foi julgada por lançar o foguete e ainda teve que pagar uma multa. Com a exposição na mídia, ela acabou se tornando uma celebridade instantânea da época pré-internet, sendo conhecida como “a Fogueteira do Maracanã”, passando por programas de TV e inclusive posando para a edição de aniversário da Playboy, que ao vender milhares de revistas com o episódio, escapou da enorme crise financeira nacional que ameaçava a publicação naquele instante.
Anos depois, Rosenery saiu dos holofotes da mídia, que tanto a maltratou quanto a acolheu. Casou com um militar, teve filhos, e morou em várias cidades do Brasil. Ao retornar para o Rio de Janeiro, ela escolheu Araruama para viver, procurando manter o total anonimato e fugindo dos jornais, revistas e emissoras de TV que volta e meia insistiam em relembrar o caso. Ela passou a ser conhecida apenas como Rose, uma dona de casa que curtia sempre um pagodinho com churrasco e comandava um barzinho que vivia sempre em festa, juntamente com seus filhos e marido, na Fazendinha. Ao tentarmos contato para uma entrevista, há alguns meses, soubemos que ela não queria relembrar esse assunto e tampouco aparecer. Apesar de acharmos a história fantástica, respeitamos sua privacidade.
Infelizmente, há algumas semanas, recebemos por amigos em comum a trágica notícia de seu falecimento, aos 45 anos de idade, vítima de complicações de um aneurisma cerebral, o que foi confirmado imediatamente pela repercussão em vários sites, agências de notícias e emissoras de TV de toda a América Latina. Rosenery deixa marido e três filhos, que optaram por doar os seus órgãos após a confirmação da morte cerebral, ocorrida no Hospital Marcílio Dias, no Rio.
Ela, mesmo que de forma acidental, escreveu seu nome na história do futebol sul-americano, e também era apaixonada por Araruama, como todos nós.

Brasileiro é muito “bonzinho” mesmo…
Muita gente deve estar se perguntando sobre o paradeiro do outro protagonista dessa história, o ex-goleiro chileno Rojas. Em entrevista, dez anos após a partida, ele declarou: “Me cortei com uma gilete e a farsa foi descoberta. Foi um corte à minha dignidade. Tive problemas em casa com minha mulher, meus amigos me deram as costas… Mas se tivesse sido um argentino, uruguaio ou brasileiro não teria sido suspenso, mas como eu sou chileno não me deram a possibilidade de reivindicar o meu direito”, lamentou.
Depois da farsa descoberta, ele foi banido do futebol pela FIFA e anistiado anos depois, em 2001. Ele foi bem acolhido pelo São Paulo Futebol Clube, que lhe deu um cargo de treinador de goleiros e um ótimo salário, quando na verdade nem em seu país o canastrão conseguia emprego.
